O misterioso carro elétrico que mistura BMW, Hyundai e Rimac

Primeira montadora saudita surge com design revolucionário e tecnologia de três gigantes automotivas

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
9 Min

Protótipo do primeiro veículo elétrico da Ceer durante testes secretos na Europa, exibindo design futurista que combina elementos da Cybertruck. Foto: Reprodução Redes Sociais

Em uma instalação secreta na Europa, algo extraordinário está sendo testado. Não é um BMW, não é um Hyundai e definitivamente não é um Rimac – mas, curiosamente, é todos eles ao mesmo tempo.

O que à primeira vista parece ser uma contradição impossível é, na verdade, a materialização de uma ambição bilionária que pode redefinir o futuro da indústria automobilística no Oriente Médio. Bem-vindo ao mundo da Ceer, a primeira marca de veículos elétricos genuinamente saudita, cujo protótipo acaba de ser flagrado em público revelando um design que desafia todas as convenções.

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O veículo, capturado em imagens que rapidamente se espalharam pela comunidade automotiva global, apresenta uma estética que pode ser melhor descrita como polarizadora.

こんな形のクルマ、アリ!? ガルウィングと世界最大のフロントガラス、サウジアラビア発「CEER」が始動https://t.co/DY4y0Vs5M1#新型車 #電気自動車 pic.twitter.com/bboKc3YmHu

— レスポンス (@responsejp) January 11, 2026

Imagine uma versão miniaturizada da icônica Tesla Cybertruck, com suas linhas angulares e futurísticas, mas mesclada com a praticidade de um SUV crossover convencional. É uma combinação visual que levanta mais perguntas do que respostas – e talvez seja exatamente essa a intenção.

Lançada oficialmente em 2022 pelo príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman, a Ceer representa muito mais do que simplesmente mais uma startup de veículos elétricos tentando conquistar seu espaço em um mercado cada vez mais saturado.

Este projeto audacioso é uma peça central na transformação econômica e tecnológica de uma nação historicamente dependente de uma única commodity: o petróleo negro que jorra de seu subsolo há décadas.

A ironia é palpável e deliberada. O maior exportador mundial de petróleo está investindo bilhões para criar veículos que não consumirão uma única gota de combustível fóssil.

É uma reviravolta histórica que reflete a compreensão profunda de que mesmo impérios construídos sobre recursos naturais precisam evoluir ou enfrentar a obsolescência.

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A alquimia tecnológica de múltiplas origens

O que torna a Ceer verdadeiramente fascinante não é apenas seu design incomum, mas a intrincada rede de parcerias tecnológicas que sustenta sua existência.

Este não é um caso simples de licenciamento de tecnologia de uma única fonte – é uma orquestração complexa de expertise de múltiplos gigantes automotivos globais, cada um contribuindo com sua especialidade específica.

A base tecnológica fundamental vem da BMW, uma das montadoras mais respeitadas quando o assunto é engenharia de precisão alemã. Através de acordos de licenciamento, a Ceer terá acesso à plataforma e arquitetura de veículos elétricos desenvolvida ao longo de décadas de pesquisa e bilhões em investimento pela marca bávara. Esta fundação proporciona credibilidade instantânea e elimina anos de desenvolvimento que uma startup normalmente precisaria enfrentar.

Mas a história não para aí. Em junho de 2024, a empresa fechou um acordo estratégico com a Hyundai Transys para implementar seu sistema de acionamento elétrico três-em-um nos futuros veículos. Esta tecnologia integrada, que combina motor elétrico, inversor e redutor em uma única unidade compacta, representa o estado da arte em eficiência de propulsão elétrica, maximizando espaço interno enquanto minimiza peso e complexidade.

Poucos meses depois, em novembro do mesmo ano, veio a surpresa que fez os entusiastas automotivos ao redor do mundo prestarem atenção: uma parceria com a Rimac, a lendária fabricante croata de hipercars elétricos que detém alguns dos recordes de desempenho mais impressionantes da indústria. A Ceer utilizará o sistema EDS de alto desempenho da Rimac, uma tecnologia que alimenta veículos capazes de acelerar de 0 a 100 km/h em tempos que desafiam a física e a crença humana.

A megacorporação 

A estrutura corporativa da Ceer é igualmente intrigante. A empresa funciona como uma joint venture entre o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) – um dos maiores fundos soberanos do planeta, com ativos estimados em centenas de bilhões de dólares – e a Hon Hai Precision Co., mais conhecida globalmente como Foxconn.

A escolha da Foxconn como parceira revela uma estratégia sofisticada. Esta é a mesma empresa que fabrica iPhones, PlayStations e incontáveis outros dispositivos eletrônicos para as maiores marcas tecnológicas do mundo. Sua expertise em manufatura de alta precisão, logística global e controle de qualidade em escala massiva traz um know-how operacional que poucas organizações no planeta possuem.

A combinação de capital ilimitado do PIF com a capacidade produtiva da Foxconn e a tecnologia licenciada de gigantes estabelecidos cria uma fórmula que evita as armadilhas clássicas que afundam startups automotivas: falta de capital, inexperiência em manufatura e ausência de tecnologia comprovada.

O para-brisa que desafia convenções

Entre as especificações reveladas sobre o misterioso veículo, uma se destaca pela audácia pura: o "maior para-brisa do mundo". A afirmação é ousada e, se verdadeira, representa uma reimaginação radical do design automotivo convencional.

O para-brisa, descrito como quase plano, foi projetado especificamente para otimizar o fluxo aerodinâmico. Esta escolha não é meramente estética – em veículos elétricos, onde cada watt de energia economizado se traduz em maior autonomia, a eficiência aerodinâmica é absolutamente crítica. Um coeficiente de arrasto reduzido pode significar dezenas de quilômetros adicionais de alcance com a mesma carga de bateria.

Mas um para-brisa massivo apresenta desafios técnicos significativos. A área de vidro expandida pode transformar o interior em uma estufa sob o sol escaldante do deserto saudita, onde temperaturas frequentemente ultrapassam 50 graus Celsius. A Ceer afirma ter solucionado este problema com proteção infravermelha avançada integrada ao vidro, bloqueando o calor radiante enquanto mantém transparência visual.

Complementando o conforto térmico, a empresa promete isolamento acústico aprimorado, uma característica cada vez mais valorizada em veículos elétricos onde a ausência do ruído tradicional do motor torna outros sons mais perceptíveis e potencialmente irritantes.

Portas que voam

As janelas laterais do protótipo também chamam atenção imediata, graças ao que parecem ser portas em formato de borboleta. Este estilo de abertura, tradicionalmente reservado para supercars exóticos e hipercars de seis ou sete dígitos, adiciona um elemento dramático de teatro automotivo ao veículo.

Portas borboleta não são apenas um capricho estético – elas apresentam vantagens práticas em certos contextos. Em espaços de estacionamento apertados, onde portas convencionais exigiriam amplo espaço lateral para abrir, as portas borboleta se elevam verticalmente, minimizando a área necessária. O movimento ascendente também facilita a entrada e saída em veículos com posição de assento elevada, comum em SUVs.

No entanto, esta escolha de design também sugere posicionamento de mercado. Portas borboleta comunicam exclusividade, performance e status – atributos que a Ceer provavelmente deseja associar à sua marca desde o primeiro veículo.

Visão 2030: reinventando uma nação

A Ceer não é um projeto isolado – é uma manifestação tangível do ambicioso programa Visão 2030, a estratégia de transformação econômica da Arábia Saudita. Concebido para reduzir drasticamente a dependência nacional do petróleo, o plano visa diversificar a economia através de investimentos maciços em tecnologia, turismo, entretenimento e energias renováveis.

A meta é audaciosa até o ponto de parecer fantasiosa: o PIF projeta que até 2034, a Ceer contribuirá diretamente com US$ 8 bilhões ao PIB saudita. Para colocar este número em perspectiva, isso equivaleria à economia inteira de alguns países pequenos.

O plano prevê que a Ceer fabricará veículos elétricos internamente em solo saudita para venda tanto no mercado doméstico quanto em mercados internacionais selecionados, focando inicialmente no Oriente Médio. A criação de uma cadeia de suprimentos automotiva completa em território saudita geraria empregos qualificados, transferência de tecnologia e desenvolvimento de expertise industrial que atualmente não existe no país.

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O mistério europeu

Atualmente, o protótipo está sendo testado em uma instalação descrita como "secreta" localizada em algum lugar da Europa. A escolha por testes europeus não é acidental – a região oferece infraestrutura de testes de classe mundial, condições climáticas variadas e proximidade com fornecedores e engenheiros especializados.

O sigilo em torno da localização exata e dos detalhes técnicos é estratégico. Em uma indústria onde cada especificação é dissecada por concorrentes e analistas, manter informações como autonomia de bateria, potência, torque e preço sob sigilo absoluto maximiza o impacto do lançamento oficial.

A Ceer ainda não revelou especificações técnicas cruciais nem estruturas de preço, mas prometeu que mais informações virão em breve. O lançamento está programado para 2026, dando à empresa aproximadamente dois anos para refinar o design, completar validações e estabelecer canais de produção e distribuição.

O mundo observa com curiosidade cética e fascinação genuína. Será que a Arábia Saudita conseguirá realizar a transição improvável de exportador de combustível fóssil para fabricante de veículos elétricos de alto desempenho? O design peculiar do primeiro veículo da Ceer será abraçado ou rejeitado pelo mercado? E mais importante: esta combinação única de tecnologia de múltiplas origens realmente funcionará como prometido?

As respostas virão em breve. Enquanto isso, o misterioso protótipo continua seus testes secretos, preparando-se para um dos lançamentos automotivos mais incomuns e ambiciosos da década.