Aquecimento além de 1,5°C ameaça saúde, agricultura e economia

Especialistas defendem corte urgente das emissões de gases do efeito estufa; ONU diz que mundo precisa enfrentar realidade de aquecimento superior

Por Com informação da Agência Brasil e da ONU
5 Min

Aquecimento além de 1,5°C ameaça saúde, agricultura e economia
ONU: manter o aumento da temperatura dentro do limite é uma questão de sobrevivência humana / Crédito: Magnific

 

Desastres naturais, ondas de calor, secas históricas, chuvas intensas e perdas agrícolas são alguns dos eventos extremos que se tornarão frequentes em um planeta mais quente do que o esperado. A conclusão é de especialistas diante do anúncio das Nações Unidas nesta quarta-feira (2) de que o planeta deve ultrapassar o limite de 1,5º C de aquecimento nos próximos anos.

Para o diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), André Guimarães, a informação precisa ser tratada com a devida gravidade e provocar esforços urgentes para mudar o cenário. “Hoje é um dia triste para a humanidade. Fomos derrotados por nós mesmos”, lamenta André.

E especialista diz que a humanidade pode redesenhar o próprio futuro neste planeta. "Temos que reduzir urgentemente a queima de combustíveis fósseis, acabar com a conversão de florestas e mudar, de forma geral, nossa relação com a natureza”, complementa.

Em evento promovido pelo pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), a presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Thelma Krug, disse que a dimensão e a duração do aquecimento determinarão o tamanho dos impactos sobre a sociedade e o meio ambiente.

Quanto mais quente e mais tempo o planeta permanecer acima do limite de 1,5ºC, maior será a necessidade de remoção de dióxido de carbono da atmosfera e mais difícil será reverter o aquecimento. A temperatura global, segundo Thelma Krug, já está cerca de 1,37°C acima dos níveis pré-industriais, com avanço aproximado de 0,26°C por década. “Fazendo uma conta bem rápida, teríamos três ou quatro anos para limitar o aquecimento, se continuarmos no ritmo atual de emissões”, explicou Thelma.

Prejuízos

O economista Sergio Margulis, especialista do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor da PUC-Rio, destaca os prejuízos econômicos do aumento das temperaturas. Perdas em infraestrutura, agricultura, saúde e energia já representam 2% do PIB global.

Margulis indica que é preciso investir na transição energética agora, para não elevar ainda mais esses prejuízos. “Hoje o mundo gasta uns 2 trilhões de dólares com descarbonização. Só que a gente precisa aumentar esse patamar para 5 trilhões ou até um pouco mais. Não tem como fugir disso”, analisa o economista.

Margulis também destaca que os governos precisarão ampliar os investimentos em adaptação, porém, o mais urgente é reduzir o problema na fonte. “Adaptação não resolve o problema físico do aquecimento global. Temos que parar com as emissões. Os países não podem ficar esperando a reversão do clima para agir”, destacou.


O coordenador de política internacional do Observatório do Clima (OC), Claudio Angelo, reforça que o relatório da ONU é um alerta para impedir que a ultrapassagem de 1,5°C seja ainda maior. “Abandonar o objetivo de devolver os termômetros a 1,5ºC não é uma opção; seria assinar um pacto coletivo de suicídio. Mas o pico e o declínio não ocorrerão enquanto países produtores de combustíveis fósseis olharem para essas indústrias como uma benesse em vez de uma maldição”, analisa Angelo. “É preciso parar já a expansão fóssil no mundo, e a COP31, daqui a dois meses, é uma oportunidade de tomar essa decisão”, finaliza.


Aquecimento superior a 1,5°C apresenta riscos graves

O planeta Terra está enviando sinais claros de que atingiu um ponto crítico. Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, revela que a humanidade está prestes a ultrapassar o limite crucial de aquecimento global de 1,5 °C nos próximos anos. Ondas de calor extremo, grandes inundações e incêndios florestais sem precedentes mostram que o mundo está no limite da segurança climática.

Na publicação apresentada nesta quarta-feira, a mensagem das Nações Unidas para os líderes globais é que manter o aumento da temperatura abaixo desse limite é uma questão de sobrevivência humana. O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou ainda que cada fração adicional de grau custará vidas, destruirá fontes de renda e causará estragos irreversíveis na natureza.

O choque coloca em risco permanente as vastas camadas de gelo e neve que revestem os Polos Norte e Sul do planeta e ameaça destruir a Floresta Amazônica, frisa a análise. Apesar do cenário grave, a catástrofe ainda pode ser evitada se o mundo agir rápido. O estudo sublinha que as soluções técnicas e financeiras já existem e estão disponíveis.

Recuperar ecossistemas essenciais

O plano propõe acabar rapidamente com a dependência de combustíveis fósseis, acelerar o uso de energias renováveis, reduzir drasticamente as emissões de gás metano e recuperar ecossistemas essenciais, como florestas e oceanos.

Essa transformação requer um compromisso político e financeiro real. Os países desenvolvidos precisam liderar esse movimento, triplicando os recursos de apoio para proteger as populações mais vulneráveis. Além de parar de poluir, o planeta precisa caminhar para remover mais carbono da atmosfera do que emite, garantindo a proteção de um futuro comum.

O Pnuma aponta como requisitos no caminho a seguir que a mitigação e a adaptação caminhem lado a lado, com prioridade imediata dada a intervenções, como as soluções de resfriamento baseadas na própria natureza. 

 


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