O brinde de champanhe na virada do ano mal esfriou e milhões de pessoas ao redor do mundo já estão embarcando em um dos movimentos de saúde mais populares da atualidade: o Janeiro Seco. Este desafio propõe algo aparentemente simples — passar 31 dias sem consumir uma única gota de álcool — mas os efeitos dessa pausa podem ser revolucionários para o corpo e a mente.
O que começou como uma iniciativa britânica em 2013 se transformou em um fenômeno global, impulsionado especialmente após a pandemia de COVID-19, período em que o consumo de bebidas alcoólicas disparou de forma alarmante em todo o planeta.
No Brasil, os números são preocupantes. Uma pesquisa da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) realizada em 33 países revelou que 42% dos entrevistados brasileiros relataram alto consumo de álcool durante a pandemia.
Outro levantamento do Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig) mostrou que 17,2% dos brasileiros que já consumiam álcool declararam ter aumentado significativamente a quantidade de bebida durante o isolamento social, frequentemente associado a quadros graves de ansiedade e depressão.
Mas o que realmente acontece quando você decide dar um tempo nas bebidas? Especialistas em saúde e estudos científicos recentes mostram que as transformações começam muito mais rápido do que a maioria imagina — e vão muito além de acordar sem ressaca.
"Passar um mês sem beber pode ajudá-lo a refletir e examinar sua relação com o álcool", explica a nutricionista Geisa Ferreira da Silva. "Você pode descobrir que depende dele para lidar com o estresse ou se sentir confortável em situações sociais. Ou pode perceber que se sente melhor e pensa com mais clareza quando não bebe."
Mesmo que você deixe de beber álcool por apenas um mês, certamente notará mudanças como pele mais limpa, sono melhor, perda de peso, mais dinheiro no bolso e mais energia.O álcool é diurético, então resseca a pele e causa o aparecimento de linhas finas e rugas prematuramente também. Beber então pode até te deixar com aparência mais jovem.
A qualidade do sono é um dos primeiros aspectos a melhorar. Embora muitas pessoas acreditem que o álcool ajuda a dormir, a realidade é bem diferente. "Quando bebemos, o álcool tem inicialmente um efeito sedativo no corpo, que pode dar sono, mas o seu metabolismo provoca, na verdade, desperta frequentemente, fragmentando seu sono. A qualidade ao final das contas é péssima", reforça Geisa Silva.
Um único mês sem ingerir álcool, segundo os pesquisadores já é suficiente para fazer a pessoa se sentir melhor, mais disposta. "Geralmente a pressão arterial melhora, os níveis de colesterol melhoram também", explica Geisa.
É claro que os benefícios da abstinência variam conforme o padrão de consumo anterior. Se o consumo era moderado ou social, essa pausa ajuda o corpo a ficar mais saudável, ajustando questões como sono e alimentação. Agora, se era um consumo mais intenso, com alterações no fígado ou impactos nas relações familiares, a parada traz benefícios ainda maiores, como desintoxicação, perda de peso e a possibilidade de voltar a beber de forma mais controlada.
Apesar de se achar o oposto, na verdade, quem bebe regularmente e para durante o mês nota modificações significativas na sua função sexual, tais como o aumento da libido e uma melhor performance.
O primeiro órgão a celebrar a ausência de álcool é o fígado. O consumo de bebidas alcoólicas traz prejuízos diretos e cumulativos ao corpo. Não existe uma dose totalmente segura. O que vemos na prática médica são consequências que aparecem com o tempo, muitas vezes de forma silenciosa.
Dados alarmantes do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) revelam que a cirrose hepática ultrapassou o número de mortes por embriaguez ao volante e se tornou a principal causa de mortes atribuída ao álcool no Brasil. Enquanto o problema hepático representou 18,5% das mortes relacionadas ao álcool, os acidentes de trânsito corresponderam a 16,4% dessas mortes.
Após consumo, o álcool pode permanecer por até 72 horas na corrente sanguínea. Não é de um dia para o outro que o organismo fica limpo. Segundo Geisa Silva, o corte no consumo traz melhorias como a função hepática restaurada, reparo da microbiota intestinal, disposição física e mental elevada, sono de qualidade e sistema imunológico fortalecido.
Para quem se preocupa com a aparência, o Janeiro Seco oferece um bônus inesperado. Por ser uma substância inflamatória, a interrupção do consumo também é notada na estética, com a melhora da celulite, a diminuição da retenção hídrica, perda de gordura abdominal e uma pele visivelmente mais saudável.
O álcool contém calorias vazias — energia sem nutrientes. Uma dose típica de bebida alcoólica (350ml de cerveja, 150ml de vinho ou 45ml de destilado) contém cerca de 14 gramas de etanol puro, correspondendo a aproximadamente 100 a 200 calorias dependendo da bebida. "O álcool e as bebidas alcoólicas também são ricos em calorias vazias, o que significa que, quando você não os consome, ingere menos calorias, o que pode levar à perda de peso", explica Sheinbaum.
Mas há um detalhe importante: com essas calorias a menos, o corpo pode experimentar ataques de hipoglicemia, gerando vontade de devorar doces. A solução é compensar com uma alimentação equilibrada, optando por abacates, vegetais verdes como brócolis, aspargos e couve-flor, e cozinhando com azeite extra-virgem e óleo de coco.
Um dos ganhos mais relatados pelos participantes do Janeiro Seco é a melhora significativa nas funções cognitivas. Um mês sem beber dá uma maior vitalidade funcional, ficamos mais rápidos do pensamento, mais fluidos, com maior capacidade executiva e maior tempo de ativação funcional.
Além disso, a ausência de álcool melhora os estados emocionais. A ausência de álcool melhora os estados de mais desgaste afetivo e sintomas depressivos. Isso é particularmente importante considerando que o álcool é uma substância depressora do sistema nervoso central, e seu consumo é fortemente associado a outros transtornos mentais.
A pandemia de COVID-19 deixou marcas profundas nos hábitos de consumo de álcool dos brasileiros. De acordo com o Panorama 2022 do CISA, enquanto o consumo abusivo entre homens se manteve relativamente estável ao longo dos anos (entre 2010 e 2023), entre mulheres o consumo abusivo aumentou de forma contínua e alarmante.
Os números são especialmente preocupantes entre mulheres jovens. O consumo abusivo pelas brasileiras aumentou 4,25% anualmente, de 2010 a 2020, passando de 7,8% em 2006 para impressionantes 16% em 2020. As maiores taxas de aumento foram verificadas em Curitiba (8,03%), São Paulo (7,34%) e Goiânia (6,72%).
A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD), alerta que a iniciação no álcool ocorre cada vez mais cedo. A média está em 13 anos de idade, sendo que 34,6% dos estudantes tomaram a primeira dose de álcool com menos de 14 anos. Há uma prevalência preocupante de meninas jovens iniciando o consumo de álcool.
Segundo especialistas, passar 30 dias sem beber pode ser desafiador, mas algumas estratégias aumentam significativamente as chances de sucesso:
Prepare o ambiente para o sucesso. Guarde suas bebidas alcoólicas longe da vista — esconda-as, deixe com um amigo ou descarte-as. O que os olhos não veem, o coração não deseja.
Recrute aliados. Convide um amigo ou familiar para fazer o desafio junto com você. Além de se apoiarem mutuamente e terem a oportunidade de compartilhar experiências, vocês também podem planejar atividades sem álcool juntos.
Crie uma agenda positiva. Faça um calendário repleto de atividades que você adora e que não envolvam álcool. Pode ser cozinhar novas receitas, praticar exercícios, aprender um instrumento musical ou retomar hobbies antigos. Isso não só vai ocupar seu tempo, como também te dará muito o que esperar durante o mês.
Experimente alternativas deliciosas. O mercado de bebidas não alcoólicas explodiu nos últimos anos, com cervejas zero álcool, vinhos desalcoolizados e mocktails sofisticados. Explore essas opções para não se sentir privado em momentos sociais.
É fundamental ressaltar que para pessoas que bebem muito e com frequência, parar de beber abruptamente pode não ser seguro. Pessoas que consomem álcool regularmente podem apresentar sintomas de abstinência se pararem de beber de forma súbita, e para alguns indivíduos, isso pode ser perigoso.
Bebedores inveterados podem sofrer convulsões e efeitos colaterais graves se pararem de beber sem consultar um médico primeiro. Nesses casos, é essencial buscar orientação médica antes de iniciar o Janeiro Seco.
No Brasil, quem enfrenta problemas com o álcool pode buscar ajuda gratuita em qualquer Unidade Básica de Saúde (posto de saúde) vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS) ou nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD), presentes em diversas cidades do país.
Uma pesquisa da Universidade de Sussex descobriu que seis meses após participarem do Janeiro Seco, mais de 70% das pessoas que passaram o mês sem álcool continuaram a beber de maneira mais saudável. Além disso, sete em cada dez pessoas diminuíram permanentemente o consumo de bebidas alcoólicas, e quase um quarto das pessoas que bebiam em níveis prejudiciais antes da campanha passou para a categoria de baixo risco.
Um benefício frequentemente subestimado do Janeiro Seco é o impacto financeiro positivo. O governo britânico desenvolveu o aplicativo "Try Dry", que auxilia participantes a monitorarem não apenas o consumo de álcool e o cumprimento de metas pessoais, mas também quantas calorias e quanto dinheiro foram economizados ao longo do mês.
Considerando que o brasileiro médio consome cerca de três doses por ocasião, e que muitos bebem semanalmente ou até diariamente, a economia pode facilmente ultrapassar centenas de reais ao longo de 31 dias — dinheiro que pode ser direcionado para outras prioridades ou prazeres mais saudáveis.
O Janeiro Seco teve origem no Reino Unido em 2013, quando a britânica Emily Robinson decidiu cortar o álcool enquanto treinava para sua primeira meia maratona. Os efeitos foram tão positivos — perda de peso, sono de qualidade e energia elevada — que ela decidiu repetir a experiência no ano seguinte e eventualmente começou a trabalhar na organização Alcohol Change UK, que oficializou o movimento.
Desde então, a iniciativa se expandiu para dezenas de países. Na Suíça, o "Dry January Switzerland" foi lançado em 2021 por uma ampla coalizão de organizações sem fins lucrativos. Em alguns países, como República Tcheca e Canadá, o "Dry February" é praticado no lugar de janeiro. A Finlândia, pioneira, já promovia um "Janeiro Sóbrio" desde 1942 como parte de seu esforço de guerra.